Espelhos não mentem, mas podem enganar.

Miki in Wonderland

In Crônicas, Viagens on 14 de maio de 2015 at 17:26

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Hoje olhei a minha agenda e me dei conta de que, pelos meus planos iniciais, nesta data, estaria pisando em solo brasileiro novamente. Me lembrei do dia em que fechei a porta atrás de mim e mentalizei: “que quando eu voltar, seja diferente!”. Mais ou menos como quando somos crianças e desejamos ter super-poderes. Eu embarquei determinada a gerar mudanças, em mim, na maneira que vejo as coisas e na forma que resolvo tudo na vida: com muita bagunça e pressa – é claro. Ou seja, queria colocar as coisas em ordem; em mim.

Ao meu ver, viajar sempre foi uma forma de observar a nós mesmos nos outros. Em outras paisagens, culturas, línguas, comportamentos. Dessa vez nosso destino nos levou mais ao leste. Três novos países para colorir no meu mapa, que já contava com oito cores, além do vibrante (e gigante) verde e amarelo da minha própria pátria mãe gentil.

O leste europeu tem um peso como nunca antes eu havia sentido. Existe uma melancolia andando ao nosso lado pelas ruas, contornando a arquitetura imponente dos prédios de pedra cinzenta. Prédios funcionais, construídos com o simples e direto propósito de abrigar algo ou alguém. As ditaduras pelas quais passaram esses países os tornaram sisudos, quase mau humorados, como se fosse natural desconfiar de tudo e todos. De qualquer forma, apesar de ver a tristeza e o sofrimento em muitas paisagens da Hungria e República Tcheca, não me sentia triste. Acredito que o fato de lá ser normal ser triste me confortava. Claro que esse parecer não inclui a Áustria, onde aparenta ser Natal o ano inteiro de tanto exagero “clássico”.

Quando finalmente abri a minha mala em solo espanhol, nas ilhas Gran Canarias, onde permaneceria pelos próximos meses, a tristeza, por fim, se manifestou. Meu pensamento durante as primeiras duas ou três semanas foi: “Eu não vou aguentar esse lugar. Três meses é muito tempo. Não tenho compromissos aqui, não tenho amigos, não conheço nada e nem tenho interesse em conhecer!” E quase entrei em desespero.

Minhas aulas começaram, e a ocupação foi afastando esses incômodos da minha mente. Aos poucos a nova rotina foi entrando no meu sistema nervoso, me fazendo adaptar à nova realidade que me cercava. Existe vida além da praia e da cidade turística projetada para aposentados. Quem é que vai se sentir mal em uma das cidades com a melhor qualidade de vida e clima do mundo? Prazer, eu.

Entretanto, fazer novas amizades nunca foi problema para mim, desde que houvesse algo em comum para se conviver em grupo. Hoje, 13 (número de sorte) semanas depois de ter deixado o Brasil, vejo como o tempo é relativo. Sinto muita (muita mesmo!) falta dos meus amigos, dos meus livros, minha família que ficou, minha casa, minhas coisas!, mas ao mesmo tempo já tenho consciência de que, quando voltar, já tenho muita coisa daqui para sentir falta também. Conheci muita gente (se tem algo que eu adoro é conhecer gente! Mais que lugares, juro por Buda). Pessoas que, como eu, estão em terreno estranho, rindo dos costumes locais (não como julgamento, mas por ser peculiar), buscando conhecimento com outras visões de mundo, outros professores, outras regras. Quebrei algumas, mas juro que foi sem querer. Acho que todos nós intercambistas quebramos em algum momento do semestre. Desde o início das minhas aulas convivo com colegas e professores de diferentes partes da Espanha, da Lituânia, Polônia, Bulgária, Chile e talvez outros lugares que eu nem saiba… Muita gente talentosa e cheia de energia, que dão vida ao Conservatório de Música e à vários outros espaços culturais de Las Palmas. Com eles aprendi, não só a aperfeiçoar a música, mas a aceitar as particularidades de cada um. Observei que não sabemos nada sobre outros países e eles também não sabem nada sobre o nosso. Como nativos, é nossa função descrever a nossa realidade.

Um dos meus livros preferidos, o qual fiz questão de trazer comigo uma versão pocket, é ‘Alice no País das Maravilhas’. Irônico, porque lembro nitidamente de odiar a animação quando criança, pois me deixava muito aflita ter todos aqueles personagens que não faziam sentido algum e ela não ter o que fazer para se livrar deles e voltar para casa. Pois bem, acho que nesse período fora da zona de conforto acabei conhecendo Lagartas, Chapeleiros Malucos, Lebres, Gatos Sorridentes, Rainhas de Copas, Coelhos Brancos e tomando chá com loucos e jogando críquete com sua majestade. A diferença é que não sou Alice, nem tenho sua personalidade corajosa e racional, só a curiosidade, que a fez pular num buraco atrás de um coelho apressado, sem saber onde ia parar ou beber poções que não sabia qual seria o efeito. O.o

Por fim o tempo passou e eu mal vi! Estendi minha permanência na Espanha para poder cumprir com todos os compromissos que me foram propostos e, olhando para a minha agenda hoje, pensei: “Eu não sei se mudei, mas esse mundo é pequeno. E dá voltas pra c@r@leo!”

Abaixo um dos meu trechos preferidos de Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll)
“O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?”

“Isso depende muito de para onde você quer ir”, respondeu o Gato.

“Não me importo muito para onde…”, retrucou Alice.

“Então não importa o caminho que você escolha”, disse o Gato.

“…contanto que dê em algum lugar”, Alice completou.

“Oh, você pode ter certeza que vai chegar”, disse o Gato, “se você caminhar bastante.”

“Alice sentiu que isso não deveria ser negado, então ela tentou outra pergunta.

“Que tipo de gente vive lá?”

“Naquela direção”, o Gato disse, apontando sua pata direita em círculo,” vive o Chapeleiro, e naquela, apontando a outra pata, “vive a Lebre de Março. Visite qualquer um que você queira, os dois são malucos.”

“Mas eu não quero ficar entre gente maluca”, Alice retrucou.

“Oh, você não tem saída”, disse o Gato, “nós somos todos malucos aqui. Eu sou louco. Você é louca.”

“Como você sabe que eu sou louca?”, perguntou Alice.

“Você deve ser”, afirmou o Gato, “ou então não teria vindo para cá.”

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