Espelhos não mentem, mas podem enganar.

O menino não Jesus de Praga

In Crônicas on 13 de outubro de 2015 at 11:36

Godot Art Gallery

Era uma pequena galeria, dentro de um pequeno beco em uma das estreitas ruas do Staré město, bairro antigo de Praga. Esses olhos nos chamaram como se pedissem ajuda em uma vitrine! Foi amor a primeira vista.

Era este o rosto que surgia em minha imaginação quando pensava em habitantes do leste europeu (não me julguem), e alguém teve a delicadeza de coloca-lo no papel para que uma pobre mortal incapaz de desenhar pudesse ter a oportunidade de vê-lo fora de sua própria cabeça.

A galeria estava abarrotada com desenhos, xilogravuras, esboços, pinturas de todo o tipo. Não era uma loja de souvenirs, era um atelier. As paredes eram em um tom de mostarda, como muitas em Praga. Na entrada um homem de seus quarenta e poucos anos, em uma mesa marrom, também abarrotada de itens. O lugar era nostálgico e cheirava a temperos, por causa do restaurante que ficava ao lado. Acho que, ao entrar, ficamos parados por uns minutos no centro da minúscula sala, sem falar, olhando aquilo tudo.

O senhor, dono do local e, provavelmente, farto de turistas, não nos deu muita bola e esperou que tentássemos algum contato, afinal, não sabia que língua falaríamos. Depois de alguns suspiros, explicamos para ele que raramente encontramos lojas como aquela em cidades turísticas e como estar ali era encantador para nós. Ele nos respondeu com o máximo de entusiasmo que um tcheco pode demonstrar e, aliviado, disse que turistas geralmente não compram obras de arte e sim chaveiros… Quanta verdade… Nos explicou que tudo ali era original e vinha com certificado de autenticidade, diferente das coisas que se comprava pelas ruas de Praga, que eram reproduções, por vezes até ilegais.

A galeria Godot foi aberta em 2003 e suas vendas são, em maioria, realizadas pela internet. O que é surpreendente baseado na estrutura que ele tinha ali. Godot é o nome de um personagem de uma peça de teatro absurdo, escrita pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett, publicada em 1952 e já encenada no Brasil muitas vezes, inclusive na nossa capital gaúcha.

Perguntamos sobre o menino do poster, que é a logomarca da galeria, e, para nossa surpresa, era um desenho criado pelo pai do dono do local, ainda vivo. A reprodução oficial do poster custou algo como 100 Coroas tchecas, que equivaleriam hoje a menos de 4 Euros. Como as pessoas sobrevivem de sua arte é ainda mais desconcertante do que o olhar do menino.

Compramos dois e mais algumas coisas. Era tudo muito bonito!
Por casualidade, ao procurar moedas na bolsa encontrei perdida uma moeda em Real e ri, brincando em português. Para minha surpresa, ele me entendeu e num salto disse: “vocês têm moedas brasileiras? Meu pai as coleciona e não tem nenhuma brasileira! Se você me der essas, posso dar um desconto nas suas compras.”

De alguma forma eu me identifiquei com aquele senhor, de olhar tristonho e acanhado, mas que transmitia uma enorme honestidade. Eu ainda tenho nítida imagem daquela conversa, naquela pequena galeria. Ele não estava preocupado em etiquetar suas coisas, nada ali tinha preço para ele. Na verdade, ele ficava muito desconcertado toda vez que tinha que dizer o preço de alguma coisa. Como se fosse desrespeitoso ou um incômodo para nós ouvir a resposta. O que cada item valia estava em sua consciência, em quando foi desenhado, em por quem foi criado (aparentemente outros membros da família também eram artistas e ele ajudava alguns amigos expondo seus trabalhos para venda ali. Ps. Kandinsky está no catálogo de vendas deles). Demos para ele todas as moedas que tínhamos e saímos de lá ouvindo ele dizer que contaria ao seu pai que brasileiros haviam comprado suas obras e como ele ficaria feliz em ouvir isso depois de pintar por tanto tempo. A gratidão estava no tom de voz dele. Por ele e o velho pai. Estes momentos não têm preço. Aqueles olhinhos estavam, de fato, nos chamando por algum motivo… não há ‘complexo de vira-lata brasileiro’ que sobreviva a tamanha honestidade e admiração. “Vocês vieram de tão longe e entraram na minha galeria. Děkuji! Nashledanou.”

Se alguém tiver a oportunidade de visita-lo o endereço é o seguinte: Karlova 184/12, 110 00 Praha 1-Staré Město, Česká republika. Diga ao seu Vladimir que o menino está faceiro em duas casas brasileiras. 🙂

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  1. Republicou isso em Guiasul Turismoe comentado:

    Um conto sobre Praga

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