Espelhos não mentem, mas podem enganar.

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Cuide dos seus sonhos

In Crônicas on 24 de dezembro de 2016 at 17:42

Eu fui uma criança chata.
Não lembro de alguma vez já ter acreditado em Papai Noel, Coelhinho, Fada do Dente, Paz Mundial…. essas lendas todas….Meus pais sempre me mostraram que quem comprava os presentes eram eles e que eles tinham um preço, que nem sempre podia ser pago (não por todos os pais e mães, e às vezes nem por eles).
Meus personagens preferidos dos desenhos da Disney eram as vilãs (AS vilãs). Me pareciam tão mais fortes e interessantes do que as princesas, que ficavam lá renegadas, esperando que algo lhes acontecesse, sem iniciativa alguma. As vilãs não gostavam de como as coisas estavam indo e queriam resolver o problema, pronto.
Não assisti Balão Mágico, Sítio e o escambau… e minhas músicas preferidas estavam compiladas em algumas coleções de grandes compositores e canções dos anos 50 e 60 que pertenciam ao meu pai. Incluindo alguns vinis… cujo som da agulha no disco me encanta até hoje.
Não era popular no colégio. Não era boa em esportes. Não lembro o nome de mais da metade de meus colegas de classe da época. Ou dos seus rostos. Lembro dos professores (alguns).
Preferia a companhia de adultos do que a de crianças. Brincava com elas, mas preferia ter ficado naquela conversa que não era pra mim… ou sozinha. Com algum livro. Que provavelmente também não devia ser pra mim…
Enfim, acho que deu para entender que eu era uma criança chata. Velha e talvez cética demais.
Até hoje não sei tratar crianças como crianças.
De qualquer forma, disse tudo isso para lhes contar que em dezembro de 2016 (hoje com 28 anos de chatice e ainda me sentindo uma criança) eu conheci o ‘Papai Noel’. Ele não me deu presente, não me pegou no colo nem me desejou Feliz Natal. Olhando nos meus olhos e dos meus colegas enquanto nos despedíamos, com um sorriso no rosto, ele decretou apenas: “que todos os seus sonhos se realizem!”. E, pela primeira vez na vida, eu torci para que ele fosse de verdade.
Eu sei que ler isso não é a mesma coisa, pois muitos já haviam me desejado isso ao longo dos anos por carta, email, mensagem; mas ouvir isso em alto e bom tom é de dar medo. É como se já fosse o início da concretização dos nossos sonhos. É real; e como toda realidade, difícil de assimilar.
Neste final de ano eu desejo que saibamos lidar com os nossos sonhos. Eles certamente serão reais um dia. E, quando esse tempo chegar, que saibamos reconhecê-los… vai saber… talvez, enquanto criança, meus sonhos fossem ser grande e conhecer um Papai Noel. (Não necessariamente nesta ordem…)

20 viajantes para seguir no Instagram

In Sem categoria on 6 de agosto de 2016 at 01:37

Guiasul Turismo

As férias acabaram, mas você pode seguir rodando o mundo virtualmente com esses viajantes fotógrafos que compartilham suas aventuras pelo Instagram. Nós escolhemos 20 perfis fantásticos para quem quer ter doses de maravilhas turísticas na tela do celular. Confere aí:

  1. @expertvagabond

    Captura de tela 2016-08-05 21.34.07É viajante em tempo integral pelo menos nos últimos 5 anos. Suas fotos incluem escaladas pelos Estados Unidos, mergulhos pelo mundo, luzes nórdicas e mais.

  2. @michaelchristopherbrown

    Captura de tela 2016-08-05 21.32.41O Michael é um fotojornalista e cobre notícias para a National Geographic em lugares como a China, Líbia, Congo e outros. Suas imagens são poderosas, com ênfase em seus retratos dos nativos.

  3. @kirstenalana

    Captura de tela 2016-08-05 21.31.17Ela não só faz fotos como também posta informações sobre o lugar em que está. Sua área é o turismo de luxo.

  4. @danielkordan

    Captura de tela 2016-08-05 21.30.04O Daniel é fotografo de paisagens e posta imagens inspiradoras de lugares como a Noruega, Rússia, Italia, Japão, Nova Zelandia e outros.

  5. @worldwanderlust

    Captura de tela 2016-08-05 21.28.13A Brooke é uma australiana…

Ver o post original 418 mais palavras

CXIV

In Poemas on 4 de agosto de 2016 at 22:54

I sing to use the waiting,

my bonnet but to tie,

and shut the door unto my house;

No more to do have I.

 

Till, his best step approaching,

we journey to the day,

and tell each other how we sang;

To keep the dark away.

 

(Emily Dickinson)

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Giovani Kososki

L’art des petits pas

In Contos on 24 de abril de 2016 at 12:39

Seigneur, apprends-moi l’art des petits pas.
Je ne demande pas de miracles ni de visions,
Mais je demande la force pour le quotidien !
Rends-moi attentif et inventif pour saisir
Au bon moment les connaissances et expériences
Qui me touchent particulièrement.
Affermis mes choix
Dans la répartition de mon temps.
Donne-moi de sentir ce qui est essentiel
Et ce qui est secondaire.
Je demande la force, la maîtrise de soi et la mesure,
Que je ne me laisse pas emporter par la vie,
Mais que j’organise avec sagesse
Le déroulement de la journée.

Aide-moi à faire face aussi bien que possible
A l’immédiat et à reconnaître l’heure présente
Comme la plus importante.
Donne-moi de reconnaître avec lucidité
Que la vie s’accompagne de difficultés, d’échecs,
Qui sont occasions de croître et de mûrir.
Fais de moi un homme capable de rejoindre
Ceux qui gisent au fond.
Donne-moi non pas ce que je souhaite,
Mais ce dont j’ai besoin.
Apprends-moi l’art des petits pas !

 

Antoine de Saint-Exupéry

Solidão: do Tinder a Edward Hopper

In Crônicas on 20 de fevereiro de 2016 at 14:34

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“O grande erro é que não queremos diversão, e sim companhia, disfarçada de um encontro casual ou (e agora atenção) de amor. Em suma, somos desesperadamente solitários. Buscamos preencher esse gritante vazio em nossas vidas com pessoas tão vazias quanto, por algumas horas de nossos dias. E assim vamos indo, de ‘match’ em ‘match’, tentando, sem sucesso, afastar a solidão e essa carência, que insiste em ser característica dos seres humanos sensíveis.”

Leia na íntegra aqui

Precisamos falar sobre Carol

In Review on 18 de fevereiro de 2016 at 00:00

Em sua 88ª edição, o Oscar perpetua, em sua lista de indicados, os estereótipos do que uma sociedade preconceituosa gosta de ver premiados. Brancos, héteros, grandes superações masculinas e muitos efeitos especiais. Que a Academia não prestigia as minorias, está explícito desde muito tempo, situação essa que tem levado a Cerimônia de entrega dos prêmios a sofrer boicotes; mas que ela aprecia vê-las sofrendo nas telas nunca esteve tão claro.

“Gays não amam em Hollywood. Eles têm romances lindos em filmes de baixo orçamento, que sequer chegam às telas de cinema e são voltados para um público muito específico, independente do esforço que se faça para levá-los as grandes salas.”

A polêmica e o meu primeiro artigo na Obvious!

Leia na íntegra: Precisamos falar sobre Carol

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A incrível história da coruja viajante

In Contos, Crônicas, Viagens on 8 de fevereiro de 2016 at 01:25

Era uma vez uma corujinha sem nome. Ela tinha tudo que uma coruja podia querer desde a infância. Uma família que a amava, bons amigos, um ninho cheio de coisas que ela gostava… mas, ainda assim, ela sentia-se incompleta, como se sua vida fosse sem cor, ou ‘nude’, porque a corujinha também lia boas revistas de moda.

Ela via que as outras corujas haviam seguido tudo o que era dito na escola, que já cumpriam suas tarefas de forma padrão e competente no reino animal. E ela não! Ela mal sabia as cores das suas próprias penas.

Cansada de voar de ninho em ninho e ver os mesmos animais todos os dias, ela resolveu viajar. “Deve existir outras corujas por aí”, pensava ela. “Sempre me disseram que são diferentes espécies, mas que são todas corujas.”.

Ela, então, fez as malas, despediu-se dos amigos e partiu.

Sua primeira parada foi o Uruguai. Lá ela conheceu corujas revolucionárias, que dominavam o campo, bebiam vinho e tangueavam pelas ruas. Atravessou o Prata e conheceu algumas mais. Na Argentina muitas corujas veneravam uma tal de Eva Perón e ela não entedia bem o motivo.

Lá fez sua primeira amiga. Ela valia ouro e era brilhante como o sol.

01 - Uruguay

argentina

De Buenos Aires, nossa corujinha resolveu voar para o Chile e ver, pela primeira vez, o Oceano Pacífico. Viu também muitos índios, grandes montanhas nevadas, danças típicas e uma cultura cheia de cores, o que lhe causava uma pontinha de inveja.

Na Ilha de Páscoa fez mais um amigo. Negro como a noite e forte como uma rocha, seu nome era Moai. Ele não falava muito, mas ela se sentia muito bem perto dele.

06 - Chile

chile

Do Chile voou até Cartagena das Índias na Colômbia e bebeu sua primeira dose de aguardente. Não sabemos muito bem o que aconteceu lá, pois a corujinha não lembrava de muita coisa quando voltou.

colombia

Não satisfeita com as coisas que havia visto e com o desejo de conhecer outras corujas ainda, ela voou para outro continente. A Europa.

Em Portugal, achou estranho que as corujas piavam como ela, mas de um jeito esquisito. Em Roma, viu a história de milhares de corujas sendo contada em cada rua e pedra da cidade. Passeou de gôndola pelos canais durante o carnaval de Veneza e também pode dizer que voou ao redor de um país inteiro em um dia. “Apesar de pequeno, o Vaticano tem muitas coisas interessantes para ver.”, ela afirmou, sorrindo. De lá foi a Londres, a cidade cinza e vermelho, como ela descreveu. Tentou marcar um chá com a coruja rainha, mas não foi possível, pois ela não teve tempo. A rainha tinha, mas a corujinha não.

Fez amizade com alguns esquilos no Hyde Park e telefonou para sua família para avisar que estava bem e continuaria sua viagem.

roma-londres

27- Veneza

Na capital inglesa, conheceu um gato parisiense que lhe convidou a visitar a capital francesa, pois encontraria todas as cores e luzes que quisesse ver. Apreciou dançarinas de Can-can, uma grande torre de aço, palácios dourados e lindas obras de arte. Passeou ao longo do rio Sena e cantou com artistas de rua. Seu amigo francês era boêmio e elegante. Seu nome era Chat Noir e voltava todas as noites cheirando a charutos e … açúcar de confeiteiro. (??)

paris

Com o gosto pela boemia já adquirido, partiu para Amsterdam. Uma eterna festa! Viu os canais que cortavam a cidade, tulipas enfeitando as janelas, bicicletas por todos os lados e muitas corujas grandes e felizes. Sério, elas eram enormes! E tinham olhos estranhos…

amster

Nossa corujinha relata que comeu um brownie oferecido por uma moça em uma vitrine vermelha e que acordou em Barcelona na manhã seguinte. Ela não sabia se ainda estava sob efeito do que quer que seja que a levou para lá, mas aquelas obras de Gaudí e Miró a céu aberto, cheias de cores, lhe emocionaram verdadeiramente. A Espanha também era uma festa! E as corujas espanholas, ‘una pasada!’

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A um certo ponto começou a sentir falta do clima de seu próprio país e voou rumo ao sul. Seu destino era o Marrocos, onde chegou a ir mais tarde, encontrar um amigo que havia conhecido no Tinder, mas avistou sete pequenas ilhas bastante simpáticas no meio do caminho. Pousou em Canárias e sentiu-se em casa. Até mesmo o uniforme do time de futebol tinha as mesmas cores que as da nossa seleção brasileira.

Lá conheceu várias corujas, vindas de diversas partes do mundo. Cada uma tinha a sua própria cor e sua maneira de comunicar-se. Ela aprendeu muito e lá permaneceu por algum tempo, aproveitando tudo aquilo que a cercava, e dando umas fugidinhas para ver seu amigo camelo em Marrakesh ou tomar um banho turco em Istambul.

canarias

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Já cansada do calor, ela migrou de volta para o norte até Viena, querendo ver algumas corujas cantoras. O que encontrou foram muitos charlatões vestidos de Mozart espalhados pelos anéis de ruas que cercavam a ópera mais famosa daquela região. Quando finalmente conseguiu ver o gorducho tenor que havia cantado naquela noite, decepcionou-se com a falta de humildade e respeito pela arte que observou nele. Tirou uma foto para recordar que ele era tão ‘nude’ quanto ela.

viena

Conheceu todas as ‘utcas’ de Budapeste e as ‘ská’, ‘ná’ e ‘ovas’ de Praga. Ruas estreitas e escuras. Tudo que uma coruja poderia querer. A Hungria e a República Tcheca lhe encantaram tanto que mal teve tempo de comprar souvenirs. Guardou tudo na memória e em algumas partituras que encontrou. Nestes dois países aprendeu que muita gente passou pela história em preto e branco, como ela.

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34 - Budapest

Cada vez mais ao leste em sua viagem, nossa corujinha acabou fazendo um pouso forçado na, incrivelmente fria, Federação Russa. O maior país do mundo! Já haviam avisado que ela não fosse para lá, pois um tal de Putin não era muito chegado em corujas estrangeiras, mas o que se há de fazer. Por sorte, três irmãs Matrioskas a acolheram e passearam com ela pelas ruas de Moscou. Ela inclusive aprendeu a ler aquele complexo alfabeto e a pronunciar algumas palavras (palavrões também).

35 - Moskow

Já com saudades de seus amigos, ela decidiu iniciar seu regresso. Passou pelo Japão, onde tinha alguns parentes que ainda nem conhecia. Seu avô migrou para o Brasil muitos anos antes de ela nascer. Não era uma boa época para corujas no Japão. Conheceu uma gueixa, mas ela era muito tímida.

36 - Japão

E assim a corujinha decolou em sua longa jornada de volta para casa, lembrando de cada momento que vivera nos últimos anos em que esteve voando por aí. De cada pedacinho de terra em que pisou, aroma que sentiu e cor que avistou no caminho. Parou em dois portos: o Seguro e o de Galinhas. Bonitas praias, mas aquilo não era, de fato, a sua praia. Outros lugares do seu próprio país lhe encantaram mais. “Quanta diversidade há nesse nosso Brasil!”, comemorava.

porto

Ao chegar no seu ninho e rever todas as outras corujas que tanto amava e sentira falta, contou sobre todas as aventuras que vivera em suas viagens e se deu conta de que não era mais composta de uma cor apenas. Ela havia mudado e era agora uma grande mistura de tudo aquilo que havia visto e aprendido. Tudo colaborou para colorir a sua personalidade e aquelas cores farão parte dela para sempre, não importa onde ela esteja.

Fim! 🙂

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Esta história foi criada numa madrugada de sábado após receber a visita de uma menininha de cinco anos que, encantada com a quantidade de badulaques espalhados pela minha sala durante sua estadia, me pedia para contar a história de cada um dos itens e de onde ele vinha. “Tia, por que essa corujinha é cheia de pedacinhos? Nunca tinha visto uma coruja assim! Ela tem nome?”. Ocupada com outros assuntos, eu prometi que contaria tudo em outro momento, pois precisava perguntar muitas coisas para a corujinha. Ela estava comigo há muito tempo e eu já não lembrava de sua história. “Mas aí eu não vou lembrar mais de cada coisa, tia!” Eis que surgiu o conto e o álbum da coruja viajante, inspirado por uma garotinha de cabelos castanhos, cheia de criatividade, energia e curiosidade, o motor que move todos nós em todos os momentos da vida.

Como diz a mãe dela: Eu me presto… e com prazer!

Fernanda Miki

Sobre a Teoria da Involução e cair de madura

In Crônicas on 11 de janeiro de 2016 at 18:16

Estou passando um tempo na casa de praia com meus avós. É um ritual que me permito de tempos em tempos. Geralmente no inverno, quando a casa está mais calma e não preciso ouvir de ninguém a célebre sentença “não estás com calor, por que não vais pra praia?”, e tenho que educadamente responder “sim, estou com calor, e, porque não quero” ou “prefiro ficar aqui lendo meu livro na sombra” ou “preciso trabalhar. Sim, no computador. Eu trabalho escrevendo. Sou jornalista freelancer. Lembra? Meu escritório é onde eu quiser. Eu quero que ele seja aqui, nessa mesa. Não, não estou de férias.”. Enfim, aquelas coisas que a gente precisa contornar quando leva uma vida mais “moderna” do que as pessoas estão acostumadas a conviver. Mas, cá estou, em janeiro.

Tá, mas o meu mau convívio com os entusiastas do verão não é o assunto que eu queria abordar. Voltando aos meus avós, uns amores, que passam me mimando e fazendo a vida valer a pena.

Ontem à noite sentei na sala para assistir ao Globo de Ouro, as premiações e o infame tapete vermelho. Eu gosto. É meu lado fútil. Com licença. É também meu lado entusiasta da sétima arte, ainda mais que esta premiação, especificamente, é dada pela imprensa e não pela Academia, como é o Oscar. Sempre tenho curiosidades a respeito de como será a recepção de alguns filmes, em especial quando os acho muito ruins… risos. A questão é que minha avó resolveu sentar ao meu lado para assistir também, interessadíssima na exibição ao vivo, sem legendas e sem tradução simultânea. “O que eles estão dizendo? Sobre o que fala este filme que está concorrendo? Como é bonita essa menina. E como é magra!”.

“Olha, vó, esse filme fala sobre abusos sexuais praticados por padres católicos. O Vaticano está enlouquecido com o lançamento deste filme. Uma pena que não está previsto para ser exibido em nenhum cinema no Brasil.” “Puxa, fazem  tantos anos que não vou ao cinema!”, ela diz.

Passa um teaser do fime ‘Carol’, que liderava as listas com cinco indicações ao prêmio, entre elas a de melhor Drama. E aí, eu tive que explicar que um dos favoritos ao Globo de Ouro 2016 contava a história de um romance proibido entre duas mulheres, com diferentes idades e situações de vida na década de 50, para a minha avó. Atenta, ela me ouviu contar que, naquela época, relacionamentos homossexuais eram proibidos por lei nos Estados Unidos, e que, ainda hoje, 78 países proíbem a ‘prática homossexual’, inclusive alguns com pena de morte. “Puxa, 78 países! Quantos, né? Eu acho que as pessoas têm que viver como bem quiserem. Ninguém tem que se meter. Conheço alguns meninos que, desde criança eu já sabia que seriam gays. É normal. Não foi surpresa, nem para mim nem para o teu avô. Eu só acho que todos devem ter uma boa postura profissional e ser educados. Coisa que todos precisam ser, independente do que sejam.. hahaha.. tu me entendeu.” Assim, nessa naturalidade ela lavou a calçada da homofobia, sentada no sofá.

Eu fico pensando: a mídia está fazendo um alarde a respeito da temática do filme, inclusive o elevando à categoria de filme bom. Risos. Não me levem a mal, acho importante que esses assuntos sejam abordados por todas as artes, ainda mais nesses longas que são considerados ‘para as massas’. O problema é que eu li o livro que o inspirou e tive a impressão de que a história havia passado por uma lavagem Hollywoodiana e teria sido reduzida ao simples fato de que a Cate Blanchett (maravilhosa) dava uns amassos na Rooney Mara. A pobre Patricia Highsmith finalmente teve seu livro mais polêmico transportado para as telas de cinema, depois de meio século desde o seu lançamento, com um elenco maravilhoso, mas com tantas alterações que mais parece um romance ‘Julia’, daqueles que se encontra em bancas de jornal. Enfim… um filme brega, com uma boa produção e trilha sonora.

Voltando a minha avó, que nem ficou até o final da longuíssima premiação para ver que o filme supra citado não levou nenhum dos globos para qual foi indicado, ela, que viveu aquele período de tanta repressão, principalmente para com as mulheres, dá um banho na minha geração e as posteriores a minha quando o assunto é ‘vá cuidar da sua vida’.

O que será da nossa sociedade se, daqui uns 20 anos, quando essa massa de adolescentes caretas (sim, são tão caretas quanto o termo ‘careta’), religiosos, conservadores ou, simplesmente autoritários e idiotas, tiver seus 35 anos e ainda se achar no direito de não respeitar alguém porque ele é homossexual (boióla), porque não trabalha numa coisa que dá dinheiro (é impossível que tu sejas feliz), porque não é a família tradicional brasileira, porque tu tens muitos amigos gays (quando vais trazer um namorado pra gente conhecer?), porque fuma maconha (que até lá será liberada), porque ela tem 40 anos e não é casada com filhos (é solteirona, ou não… dizem que…), porque tem tatuagem (que horror), porque é a favor do aborto (onde está o respeito à vida?!) (Ué?!), porque ela é guria e bebe e faz festa tanto quanto o tiozão garanhão da família (quando será que ELA vai tomar juízo?), porque lá em 2014 votou na Dilma (culpa sua, a crise política), porque não tem fé, porque , porque, porque…

Por que as letras de músicas escritas há 30, 40 anos continuam tão aplicáveis ao cenário atual? Falando em música, enquanto estava escrevendo, eu ouvia um CD do Kid Abelha e minha avó passou por mim cantarolando “amanhããã é vinte e trêêês…”.

Por que as pessoas parecem retroceder quando se trata de liberdade e respeito às diferenças? (Não é retrocesso! É querer manter a ordem e a moral). Ora, pois. Se o gráfico seguir assim temos uma bela tempestade moral e cívica se aproximando! Os piá são muito mais ‘tradicionais’ que meus avós, que agora há pouco estavam dizendo que eu deveria procurar alguém da raça japonesa para me relacionar. “Eles são inteligentes e gostam de sexo!”, simples assim. Se viva estiver (e eu até rezaria para que sim, caso acreditasse que funciona), minha avó solenemente dirá para os futuros seres producentes e julgadores do nosso Brasil o mesmo que diria hoje: “Puxa! Que gente chata… Filha, nem sabes, eu caí hoje no centro. Mas só me machuquei um pouquinho… Caí de madura! Risos”.

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