Espelhos não mentem, mas podem enganar.

Sobre a Teoria da Involução e cair de madura

In Crônicas on 11 de janeiro de 2016 at 18:16

Estou passando um tempo na casa de praia com meus avós. É um ritual que me permito de tempos em tempos. Geralmente no inverno, quando a casa está mais calma e não preciso ouvir de ninguém a célebre sentença “não estás com calor, por que não vais pra praia?”, e tenho que educadamente responder “sim, estou com calor, e, porque não quero” ou “prefiro ficar aqui lendo meu livro na sombra” ou “preciso trabalhar. Sim, no computador. Eu trabalho escrevendo. Sou jornalista freelancer. Lembra? Meu escritório é onde eu quiser. Eu quero que ele seja aqui, nessa mesa. Não, não estou de férias.”. Enfim, aquelas coisas que a gente precisa contornar quando leva uma vida mais “moderna” do que as pessoas estão acostumadas a conviver. Mas, cá estou, em janeiro.

Tá, mas o meu mau convívio com os entusiastas do verão não é o assunto que eu queria abordar. Voltando aos meus avós, uns amores, que passam me mimando e fazendo a vida valer a pena.

Ontem à noite sentei na sala para assistir ao Globo de Ouro, as premiações e o infame tapete vermelho. Eu gosto. É meu lado fútil. Com licença. É também meu lado entusiasta da sétima arte, ainda mais que esta premiação, especificamente, é dada pela imprensa e não pela Academia, como é o Oscar. Sempre tenho curiosidades a respeito de como será a recepção de alguns filmes, em especial quando os acho muito ruins… risos. A questão é que minha avó resolveu sentar ao meu lado para assistir também, interessadíssima na exibição ao vivo, sem legendas e sem tradução simultânea. “O que eles estão dizendo? Sobre o que fala este filme que está concorrendo? Como é bonita essa menina. E como é magra!”.

“Olha, vó, esse filme fala sobre abusos sexuais praticados por padres católicos. O Vaticano está enlouquecido com o lançamento deste filme. Uma pena que não está previsto para ser exibido em nenhum cinema no Brasil.” “Puxa, fazem  tantos anos que não vou ao cinema!”, ela diz.

Passa um teaser do fime ‘Carol’, que liderava as listas com cinco indicações ao prêmio, entre elas a de melhor Drama. E aí, eu tive que explicar que um dos favoritos ao Globo de Ouro 2016 contava a história de um romance proibido entre duas mulheres, com diferentes idades e situações de vida na década de 50, para a minha avó. Atenta, ela me ouviu contar que, naquela época, relacionamentos homossexuais eram proibidos por lei nos Estados Unidos, e que, ainda hoje, 78 países proíbem a ‘prática homossexual’, inclusive alguns com pena de morte. “Puxa, 78 países! Quantos, né? Eu acho que as pessoas têm que viver como bem quiserem. Ninguém tem que se meter. Conheço alguns meninos que, desde criança eu já sabia que seriam gays. É normal. Não foi surpresa, nem para mim nem para o teu avô. Eu só acho que todos devem ter uma boa postura profissional e ser educados. Coisa que todos precisam ser, independente do que sejam.. hahaha.. tu me entendeu.” Assim, nessa naturalidade ela lavou a calçada da homofobia, sentada no sofá.

Eu fico pensando: a mídia está fazendo um alarde a respeito da temática do filme, inclusive o elevando à categoria de filme bom. Risos. Não me levem a mal, acho importante que esses assuntos sejam abordados por todas as artes, ainda mais nesses longas que são considerados ‘para as massas’. O problema é que eu li o livro que o inspirou e tive a impressão de que a história havia passado por uma lavagem Hollywoodiana e teria sido reduzida ao simples fato de que a Cate Blanchett (maravilhosa) dava uns amassos na Rooney Mara. A pobre Patricia Highsmith finalmente teve seu livro mais polêmico transportado para as telas de cinema, depois de meio século desde o seu lançamento, com um elenco maravilhoso, mas com tantas alterações que mais parece um romance ‘Julia’, daqueles que se encontra em bancas de jornal. Enfim… um filme brega, com uma boa produção e trilha sonora.

Voltando a minha avó, que nem ficou até o final da longuíssima premiação para ver que o filme supra citado não levou nenhum dos globos para qual foi indicado, ela, que viveu aquele período de tanta repressão, principalmente para com as mulheres, dá um banho na minha geração e as posteriores a minha quando o assunto é ‘vá cuidar da sua vida’.

O que será da nossa sociedade se, daqui uns 20 anos, quando essa massa de adolescentes caretas (sim, são tão caretas quanto o termo ‘careta’), religiosos, conservadores ou, simplesmente autoritários e idiotas, tiver seus 35 anos e ainda se achar no direito de não respeitar alguém porque ele é homossexual (boióla), porque não trabalha numa coisa que dá dinheiro (é impossível que tu sejas feliz), porque não é a família tradicional brasileira, porque tu tens muitos amigos gays (quando vais trazer um namorado pra gente conhecer?), porque fuma maconha (que até lá será liberada), porque ela tem 40 anos e não é casada com filhos (é solteirona, ou não… dizem que…), porque tem tatuagem (que horror), porque é a favor do aborto (onde está o respeito à vida?!) (Ué?!), porque ela é guria e bebe e faz festa tanto quanto o tiozão garanhão da família (quando será que ELA vai tomar juízo?), porque lá em 2014 votou na Dilma (culpa sua, a crise política), porque não tem fé, porque , porque, porque…

Por que as letras de músicas escritas há 30, 40 anos continuam tão aplicáveis ao cenário atual? Falando em música, enquanto estava escrevendo, eu ouvia um CD do Kid Abelha e minha avó passou por mim cantarolando “amanhããã é vinte e trêêês…”.

Por que as pessoas parecem retroceder quando se trata de liberdade e respeito às diferenças? (Não é retrocesso! É querer manter a ordem e a moral). Ora, pois. Se o gráfico seguir assim temos uma bela tempestade moral e cívica se aproximando! Os piá são muito mais ‘tradicionais’ que meus avós, que agora há pouco estavam dizendo que eu deveria procurar alguém da raça japonesa para me relacionar. “Eles são inteligentes e gostam de sexo!”, simples assim. Se viva estiver (e eu até rezaria para que sim, caso acreditasse que funciona), minha avó solenemente dirá para os futuros seres producentes e julgadores do nosso Brasil o mesmo que diria hoje: “Puxa! Que gente chata… Filha, nem sabes, eu caí hoje no centro. Mas só me machuquei um pouquinho… Caí de madura! Risos”.

 Cate-Blanchett-Rooney-Mara-abiti-Alexander-McQueen-Todd-Haynes-Cannes-2015-photocall-Carol-5.jpg

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