Espelhos não mentem, mas podem enganar.

A incrível história da coruja viajante

In Contos, Crônicas, Viagens on 8 de fevereiro de 2016 at 01:25

Era uma vez uma corujinha sem nome. Ela tinha tudo que uma coruja podia querer desde a infância. Uma família que a amava, bons amigos, um ninho cheio de coisas que ela gostava… mas, ainda assim, ela sentia-se incompleta, como se sua vida fosse sem cor, ou ‘nude’, porque a corujinha também lia boas revistas de moda.

Ela via que as outras corujas haviam seguido tudo o que era dito na escola, que já cumpriam suas tarefas de forma padrão e competente no reino animal. E ela não! Ela mal sabia as cores das suas próprias penas.

Cansada de voar de ninho em ninho e ver os mesmos animais todos os dias, ela resolveu viajar. “Deve existir outras corujas por aí”, pensava ela. “Sempre me disseram que são diferentes espécies, mas que são todas corujas.”.

Ela, então, fez as malas, despediu-se dos amigos e partiu.

Sua primeira parada foi o Uruguai. Lá ela conheceu corujas revolucionárias, que dominavam o campo, bebiam vinho e tangueavam pelas ruas. Atravessou o Prata e conheceu algumas mais. Na Argentina muitas corujas veneravam uma tal de Eva Perón e ela não entedia bem o motivo.

Lá fez sua primeira amiga. Ela valia ouro e era brilhante como o sol.

01 - Uruguay

argentina

De Buenos Aires, nossa corujinha resolveu voar para o Chile e ver, pela primeira vez, o Oceano Pacífico. Viu também muitos índios, grandes montanhas nevadas, danças típicas e uma cultura cheia de cores, o que lhe causava uma pontinha de inveja.

Na Ilha de Páscoa fez mais um amigo. Negro como a noite e forte como uma rocha, seu nome era Moai. Ele não falava muito, mas ela se sentia muito bem perto dele.

06 - Chile

chile

Do Chile voou até Cartagena das Índias na Colômbia e bebeu sua primeira dose de aguardente. Não sabemos muito bem o que aconteceu lá, pois a corujinha não lembrava de muita coisa quando voltou.

colombia

Não satisfeita com as coisas que havia visto e com o desejo de conhecer outras corujas ainda, ela voou para outro continente. A Europa.

Em Portugal, achou estranho que as corujas piavam como ela, mas de um jeito esquisito. Em Roma, viu a história de milhares de corujas sendo contada em cada rua e pedra da cidade. Passeou de gôndola pelos canais durante o carnaval de Veneza e também pode dizer que voou ao redor de um país inteiro em um dia. “Apesar de pequeno, o Vaticano tem muitas coisas interessantes para ver.”, ela afirmou, sorrindo. De lá foi a Londres, a cidade cinza e vermelho, como ela descreveu. Tentou marcar um chá com a coruja rainha, mas não foi possível, pois ela não teve tempo. A rainha tinha, mas a corujinha não.

Fez amizade com alguns esquilos no Hyde Park e telefonou para sua família para avisar que estava bem e continuaria sua viagem.

roma-londres

27- Veneza

Na capital inglesa, conheceu um gato parisiense que lhe convidou a visitar a capital francesa, pois encontraria todas as cores e luzes que quisesse ver. Apreciou dançarinas de Can-can, uma grande torre de aço, palácios dourados e lindas obras de arte. Passeou ao longo do rio Sena e cantou com artistas de rua. Seu amigo francês era boêmio e elegante. Seu nome era Chat Noir e voltava todas as noites cheirando a charutos e … açúcar de confeiteiro. (??)

paris

Com o gosto pela boemia já adquirido, partiu para Amsterdam. Uma eterna festa! Viu os canais que cortavam a cidade, tulipas enfeitando as janelas, bicicletas por todos os lados e muitas corujas grandes e felizes. Sério, elas eram enormes! E tinham olhos estranhos…

amster

Nossa corujinha relata que comeu um brownie oferecido por uma moça em uma vitrine vermelha e que acordou em Barcelona na manhã seguinte. Ela não sabia se ainda estava sob efeito do que quer que seja que a levou para lá, mas aquelas obras de Gaudí e Miró a céu aberto, cheias de cores, lhe emocionaram verdadeiramente. A Espanha também era uma festa! E as corujas espanholas, ‘una pasada!’

20 - Barcelona.jpg

A um certo ponto começou a sentir falta do clima de seu próprio país e voou rumo ao sul. Seu destino era o Marrocos, onde chegou a ir mais tarde, encontrar um amigo que havia conhecido no Tinder, mas avistou sete pequenas ilhas bastante simpáticas no meio do caminho. Pousou em Canárias e sentiu-se em casa. Até mesmo o uniforme do time de futebol tinha as mesmas cores que as da nossa seleção brasileira.

Lá conheceu várias corujas, vindas de diversas partes do mundo. Cada uma tinha a sua própria cor e sua maneira de comunicar-se. Ela aprendeu muito e lá permaneceu por algum tempo, aproveitando tudo aquilo que a cercava, e dando umas fugidinhas para ver seu amigo camelo em Marrakesh ou tomar um banho turco em Istambul.

canarias

turkie-morocco

Já cansada do calor, ela migrou de volta para o norte até Viena, querendo ver algumas corujas cantoras. O que encontrou foram muitos charlatões vestidos de Mozart espalhados pelos anéis de ruas que cercavam a ópera mais famosa daquela região. Quando finalmente conseguiu ver o gorducho tenor que havia cantado naquela noite, decepcionou-se com a falta de humildade e respeito pela arte que observou nele. Tirou uma foto para recordar que ele era tão ‘nude’ quanto ela.

viena

Conheceu todas as ‘utcas’ de Budapeste e as ‘ská’, ‘ná’ e ‘ovas’ de Praga. Ruas estreitas e escuras. Tudo que uma coruja poderia querer. A Hungria e a República Tcheca lhe encantaram tanto que mal teve tempo de comprar souvenirs. Guardou tudo na memória e em algumas partituras que encontrou. Nestes dois países aprendeu que muita gente passou pela história em preto e branco, como ela.

praha-buda

34 - Budapest

Cada vez mais ao leste em sua viagem, nossa corujinha acabou fazendo um pouso forçado na, incrivelmente fria, Federação Russa. O maior país do mundo! Já haviam avisado que ela não fosse para lá, pois um tal de Putin não era muito chegado em corujas estrangeiras, mas o que se há de fazer. Por sorte, três irmãs Matrioskas a acolheram e passearam com ela pelas ruas de Moscou. Ela inclusive aprendeu a ler aquele complexo alfabeto e a pronunciar algumas palavras (palavrões também).

35 - Moskow

Já com saudades de seus amigos, ela decidiu iniciar seu regresso. Passou pelo Japão, onde tinha alguns parentes que ainda nem conhecia. Seu avô migrou para o Brasil muitos anos antes de ela nascer. Não era uma boa época para corujas no Japão. Conheceu uma gueixa, mas ela era muito tímida.

36 - Japão

E assim a corujinha decolou em sua longa jornada de volta para casa, lembrando de cada momento que vivera nos últimos anos em que esteve voando por aí. De cada pedacinho de terra em que pisou, aroma que sentiu e cor que avistou no caminho. Parou em dois portos: o Seguro e o de Galinhas. Bonitas praias, mas aquilo não era, de fato, a sua praia. Outros lugares do seu próprio país lhe encantaram mais. “Quanta diversidade há nesse nosso Brasil!”, comemorava.

porto

Ao chegar no seu ninho e rever todas as outras corujas que tanto amava e sentira falta, contou sobre todas as aventuras que vivera em suas viagens e se deu conta de que não era mais composta de uma cor apenas. Ela havia mudado e era agora uma grande mistura de tudo aquilo que havia visto e aprendido. Tudo colaborou para colorir a sua personalidade e aquelas cores farão parte dela para sempre, não importa onde ela esteja.

Fim! 🙂

Corujinha.jpg

Esta história foi criada numa madrugada de sábado após receber a visita de uma menininha de cinco anos que, encantada com a quantidade de badulaques espalhados pela minha sala durante sua estadia, me pedia para contar a história de cada um dos itens e de onde ele vinha. “Tia, por que essa corujinha é cheia de pedacinhos? Nunca tinha visto uma coruja assim! Ela tem nome?”. Ocupada com outros assuntos, eu prometi que contaria tudo em outro momento, pois precisava perguntar muitas coisas para a corujinha. Ela estava comigo há muito tempo e eu já não lembrava de sua história. “Mas aí eu não vou lembrar mais de cada coisa, tia!” Eis que surgiu o conto e o álbum da coruja viajante, inspirado por uma garotinha de cabelos castanhos, cheia de criatividade, energia e curiosidade, o motor que move todos nós em todos os momentos da vida.

Como diz a mãe dela: Eu me presto… e com prazer!

Fernanda Miki

Anúncios
  1. Republicou isso em Guiasul Turismo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: