Espelhos não mentem, mas podem enganar.

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Cuide dos seus sonhos

In Crônicas on 24 de dezembro de 2016 at 17:42

Eu fui uma criança chata.
Não lembro de alguma vez já ter acreditado em Papai Noel, Coelhinho, Fada do Dente, Paz Mundial…. essas lendas todas….Meus pais sempre me mostraram que quem comprava os presentes eram eles e que eles tinham um preço, que nem sempre podia ser pago (não por todos os pais e mães, e às vezes nem por eles).
Meus personagens preferidos dos desenhos da Disney eram as vilãs (AS vilãs). Me pareciam tão mais fortes e interessantes do que as princesas, que ficavam lá renegadas, esperando que algo lhes acontecesse, sem iniciativa alguma. As vilãs não gostavam de como as coisas estavam indo e queriam resolver o problema, pronto.
Não assisti Balão Mágico, Sítio e o escambau… e minhas músicas preferidas estavam compiladas em algumas coleções de grandes compositores e canções dos anos 50 e 60 que pertenciam ao meu pai. Incluindo alguns vinis… cujo som da agulha no disco me encanta até hoje.
Não era popular no colégio. Não era boa em esportes. Não lembro o nome de mais da metade de meus colegas de classe da época. Ou dos seus rostos. Lembro dos professores (alguns).
Preferia a companhia de adultos do que a de crianças. Brincava com elas, mas preferia ter ficado naquela conversa que não era pra mim… ou sozinha. Com algum livro. Que provavelmente também não devia ser pra mim…
Enfim, acho que deu para entender que eu era uma criança chata. Velha e talvez cética demais.
Até hoje não sei tratar crianças como crianças.
De qualquer forma, disse tudo isso para lhes contar que em dezembro de 2016 (hoje com 28 anos de chatice e ainda me sentindo uma criança) eu conheci o ‘Papai Noel’. Ele não me deu presente, não me pegou no colo nem me desejou Feliz Natal. Olhando nos meus olhos e dos meus colegas enquanto nos despedíamos, com um sorriso no rosto, ele decretou apenas: “que todos os seus sonhos se realizem!”. E, pela primeira vez na vida, eu torci para que ele fosse de verdade.
Eu sei que ler isso não é a mesma coisa, pois muitos já haviam me desejado isso ao longo dos anos por carta, email, mensagem; mas ouvir isso em alto e bom tom é de dar medo. É como se já fosse o início da concretização dos nossos sonhos. É real; e como toda realidade, difícil de assimilar.
Neste final de ano eu desejo que saibamos lidar com os nossos sonhos. Eles certamente serão reais um dia. E, quando esse tempo chegar, que saibamos reconhecê-los… vai saber… talvez, enquanto criança, meus sonhos fossem ser grande e conhecer um Papai Noel. (Não necessariamente nesta ordem…)

Solidão: do Tinder a Edward Hopper

In Crônicas on 20 de fevereiro de 2016 at 14:34

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“O grande erro é que não queremos diversão, e sim companhia, disfarçada de um encontro casual ou (e agora atenção) de amor. Em suma, somos desesperadamente solitários. Buscamos preencher esse gritante vazio em nossas vidas com pessoas tão vazias quanto, por algumas horas de nossos dias. E assim vamos indo, de ‘match’ em ‘match’, tentando, sem sucesso, afastar a solidão e essa carência, que insiste em ser característica dos seres humanos sensíveis.”

Leia na íntegra aqui

A incrível história da coruja viajante

In Contos, Crônicas, Viagens on 8 de fevereiro de 2016 at 01:25

Era uma vez uma corujinha sem nome. Ela tinha tudo que uma coruja podia querer desde a infância. Uma família que a amava, bons amigos, um ninho cheio de coisas que ela gostava… mas, ainda assim, ela sentia-se incompleta, como se sua vida fosse sem cor, ou ‘nude’, porque a corujinha também lia boas revistas de moda.

Ela via que as outras corujas haviam seguido tudo o que era dito na escola, que já cumpriam suas tarefas de forma padrão e competente no reino animal. E ela não! Ela mal sabia as cores das suas próprias penas.

Cansada de voar de ninho em ninho e ver os mesmos animais todos os dias, ela resolveu viajar. “Deve existir outras corujas por aí”, pensava ela. “Sempre me disseram que são diferentes espécies, mas que são todas corujas.”.

Ela, então, fez as malas, despediu-se dos amigos e partiu.

Sua primeira parada foi o Uruguai. Lá ela conheceu corujas revolucionárias, que dominavam o campo, bebiam vinho e tangueavam pelas ruas. Atravessou o Prata e conheceu algumas mais. Na Argentina muitas corujas veneravam uma tal de Eva Perón e ela não entedia bem o motivo.

Lá fez sua primeira amiga. Ela valia ouro e era brilhante como o sol.

01 - Uruguay

argentina

De Buenos Aires, nossa corujinha resolveu voar para o Chile e ver, pela primeira vez, o Oceano Pacífico. Viu também muitos índios, grandes montanhas nevadas, danças típicas e uma cultura cheia de cores, o que lhe causava uma pontinha de inveja.

Na Ilha de Páscoa fez mais um amigo. Negro como a noite e forte como uma rocha, seu nome era Moai. Ele não falava muito, mas ela se sentia muito bem perto dele.

06 - Chile

chile

Do Chile voou até Cartagena das Índias na Colômbia e bebeu sua primeira dose de aguardente. Não sabemos muito bem o que aconteceu lá, pois a corujinha não lembrava de muita coisa quando voltou.

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Não satisfeita com as coisas que havia visto e com o desejo de conhecer outras corujas ainda, ela voou para outro continente. A Europa.

Em Portugal, achou estranho que as corujas piavam como ela, mas de um jeito esquisito. Em Roma, viu a história de milhares de corujas sendo contada em cada rua e pedra da cidade. Passeou de gôndola pelos canais durante o carnaval de Veneza e também pode dizer que voou ao redor de um país inteiro em um dia. “Apesar de pequeno, o Vaticano tem muitas coisas interessantes para ver.”, ela afirmou, sorrindo. De lá foi a Londres, a cidade cinza e vermelho, como ela descreveu. Tentou marcar um chá com a coruja rainha, mas não foi possível, pois ela não teve tempo. A rainha tinha, mas a corujinha não.

Fez amizade com alguns esquilos no Hyde Park e telefonou para sua família para avisar que estava bem e continuaria sua viagem.

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27- Veneza

Na capital inglesa, conheceu um gato parisiense que lhe convidou a visitar a capital francesa, pois encontraria todas as cores e luzes que quisesse ver. Apreciou dançarinas de Can-can, uma grande torre de aço, palácios dourados e lindas obras de arte. Passeou ao longo do rio Sena e cantou com artistas de rua. Seu amigo francês era boêmio e elegante. Seu nome era Chat Noir e voltava todas as noites cheirando a charutos e … açúcar de confeiteiro. (??)

paris

Com o gosto pela boemia já adquirido, partiu para Amsterdam. Uma eterna festa! Viu os canais que cortavam a cidade, tulipas enfeitando as janelas, bicicletas por todos os lados e muitas corujas grandes e felizes. Sério, elas eram enormes! E tinham olhos estranhos…

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Nossa corujinha relata que comeu um brownie oferecido por uma moça em uma vitrine vermelha e que acordou em Barcelona na manhã seguinte. Ela não sabia se ainda estava sob efeito do que quer que seja que a levou para lá, mas aquelas obras de Gaudí e Miró a céu aberto, cheias de cores, lhe emocionaram verdadeiramente. A Espanha também era uma festa! E as corujas espanholas, ‘una pasada!’

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A um certo ponto começou a sentir falta do clima de seu próprio país e voou rumo ao sul. Seu destino era o Marrocos, onde chegou a ir mais tarde, encontrar um amigo que havia conhecido no Tinder, mas avistou sete pequenas ilhas bastante simpáticas no meio do caminho. Pousou em Canárias e sentiu-se em casa. Até mesmo o uniforme do time de futebol tinha as mesmas cores que as da nossa seleção brasileira.

Lá conheceu várias corujas, vindas de diversas partes do mundo. Cada uma tinha a sua própria cor e sua maneira de comunicar-se. Ela aprendeu muito e lá permaneceu por algum tempo, aproveitando tudo aquilo que a cercava, e dando umas fugidinhas para ver seu amigo camelo em Marrakesh ou tomar um banho turco em Istambul.

canarias

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Já cansada do calor, ela migrou de volta para o norte até Viena, querendo ver algumas corujas cantoras. O que encontrou foram muitos charlatões vestidos de Mozart espalhados pelos anéis de ruas que cercavam a ópera mais famosa daquela região. Quando finalmente conseguiu ver o gorducho tenor que havia cantado naquela noite, decepcionou-se com a falta de humildade e respeito pela arte que observou nele. Tirou uma foto para recordar que ele era tão ‘nude’ quanto ela.

viena

Conheceu todas as ‘utcas’ de Budapeste e as ‘ská’, ‘ná’ e ‘ovas’ de Praga. Ruas estreitas e escuras. Tudo que uma coruja poderia querer. A Hungria e a República Tcheca lhe encantaram tanto que mal teve tempo de comprar souvenirs. Guardou tudo na memória e em algumas partituras que encontrou. Nestes dois países aprendeu que muita gente passou pela história em preto e branco, como ela.

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34 - Budapest

Cada vez mais ao leste em sua viagem, nossa corujinha acabou fazendo um pouso forçado na, incrivelmente fria, Federação Russa. O maior país do mundo! Já haviam avisado que ela não fosse para lá, pois um tal de Putin não era muito chegado em corujas estrangeiras, mas o que se há de fazer. Por sorte, três irmãs Matrioskas a acolheram e passearam com ela pelas ruas de Moscou. Ela inclusive aprendeu a ler aquele complexo alfabeto e a pronunciar algumas palavras (palavrões também).

35 - Moskow

Já com saudades de seus amigos, ela decidiu iniciar seu regresso. Passou pelo Japão, onde tinha alguns parentes que ainda nem conhecia. Seu avô migrou para o Brasil muitos anos antes de ela nascer. Não era uma boa época para corujas no Japão. Conheceu uma gueixa, mas ela era muito tímida.

36 - Japão

E assim a corujinha decolou em sua longa jornada de volta para casa, lembrando de cada momento que vivera nos últimos anos em que esteve voando por aí. De cada pedacinho de terra em que pisou, aroma que sentiu e cor que avistou no caminho. Parou em dois portos: o Seguro e o de Galinhas. Bonitas praias, mas aquilo não era, de fato, a sua praia. Outros lugares do seu próprio país lhe encantaram mais. “Quanta diversidade há nesse nosso Brasil!”, comemorava.

porto

Ao chegar no seu ninho e rever todas as outras corujas que tanto amava e sentira falta, contou sobre todas as aventuras que vivera em suas viagens e se deu conta de que não era mais composta de uma cor apenas. Ela havia mudado e era agora uma grande mistura de tudo aquilo que havia visto e aprendido. Tudo colaborou para colorir a sua personalidade e aquelas cores farão parte dela para sempre, não importa onde ela esteja.

Fim! 🙂

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Esta história foi criada numa madrugada de sábado após receber a visita de uma menininha de cinco anos que, encantada com a quantidade de badulaques espalhados pela minha sala durante sua estadia, me pedia para contar a história de cada um dos itens e de onde ele vinha. “Tia, por que essa corujinha é cheia de pedacinhos? Nunca tinha visto uma coruja assim! Ela tem nome?”. Ocupada com outros assuntos, eu prometi que contaria tudo em outro momento, pois precisava perguntar muitas coisas para a corujinha. Ela estava comigo há muito tempo e eu já não lembrava de sua história. “Mas aí eu não vou lembrar mais de cada coisa, tia!” Eis que surgiu o conto e o álbum da coruja viajante, inspirado por uma garotinha de cabelos castanhos, cheia de criatividade, energia e curiosidade, o motor que move todos nós em todos os momentos da vida.

Como diz a mãe dela: Eu me presto… e com prazer!

Fernanda Miki

Sobre a Teoria da Involução e cair de madura

In Crônicas on 11 de janeiro de 2016 at 18:16

Estou passando um tempo na casa de praia com meus avós. É um ritual que me permito de tempos em tempos. Geralmente no inverno, quando a casa está mais calma e não preciso ouvir de ninguém a célebre sentença “não estás com calor, por que não vais pra praia?”, e tenho que educadamente responder “sim, estou com calor, e, porque não quero” ou “prefiro ficar aqui lendo meu livro na sombra” ou “preciso trabalhar. Sim, no computador. Eu trabalho escrevendo. Sou jornalista freelancer. Lembra? Meu escritório é onde eu quiser. Eu quero que ele seja aqui, nessa mesa. Não, não estou de férias.”. Enfim, aquelas coisas que a gente precisa contornar quando leva uma vida mais “moderna” do que as pessoas estão acostumadas a conviver. Mas, cá estou, em janeiro.

Tá, mas o meu mau convívio com os entusiastas do verão não é o assunto que eu queria abordar. Voltando aos meus avós, uns amores, que passam me mimando e fazendo a vida valer a pena.

Ontem à noite sentei na sala para assistir ao Globo de Ouro, as premiações e o infame tapete vermelho. Eu gosto. É meu lado fútil. Com licença. É também meu lado entusiasta da sétima arte, ainda mais que esta premiação, especificamente, é dada pela imprensa e não pela Academia, como é o Oscar. Sempre tenho curiosidades a respeito de como será a recepção de alguns filmes, em especial quando os acho muito ruins… risos. A questão é que minha avó resolveu sentar ao meu lado para assistir também, interessadíssima na exibição ao vivo, sem legendas e sem tradução simultânea. “O que eles estão dizendo? Sobre o que fala este filme que está concorrendo? Como é bonita essa menina. E como é magra!”.

“Olha, vó, esse filme fala sobre abusos sexuais praticados por padres católicos. O Vaticano está enlouquecido com o lançamento deste filme. Uma pena que não está previsto para ser exibido em nenhum cinema no Brasil.” “Puxa, fazem  tantos anos que não vou ao cinema!”, ela diz.

Passa um teaser do fime ‘Carol’, que liderava as listas com cinco indicações ao prêmio, entre elas a de melhor Drama. E aí, eu tive que explicar que um dos favoritos ao Globo de Ouro 2016 contava a história de um romance proibido entre duas mulheres, com diferentes idades e situações de vida na década de 50, para a minha avó. Atenta, ela me ouviu contar que, naquela época, relacionamentos homossexuais eram proibidos por lei nos Estados Unidos, e que, ainda hoje, 78 países proíbem a ‘prática homossexual’, inclusive alguns com pena de morte. “Puxa, 78 países! Quantos, né? Eu acho que as pessoas têm que viver como bem quiserem. Ninguém tem que se meter. Conheço alguns meninos que, desde criança eu já sabia que seriam gays. É normal. Não foi surpresa, nem para mim nem para o teu avô. Eu só acho que todos devem ter uma boa postura profissional e ser educados. Coisa que todos precisam ser, independente do que sejam.. hahaha.. tu me entendeu.” Assim, nessa naturalidade ela lavou a calçada da homofobia, sentada no sofá.

Eu fico pensando: a mídia está fazendo um alarde a respeito da temática do filme, inclusive o elevando à categoria de filme bom. Risos. Não me levem a mal, acho importante que esses assuntos sejam abordados por todas as artes, ainda mais nesses longas que são considerados ‘para as massas’. O problema é que eu li o livro que o inspirou e tive a impressão de que a história havia passado por uma lavagem Hollywoodiana e teria sido reduzida ao simples fato de que a Cate Blanchett (maravilhosa) dava uns amassos na Rooney Mara. A pobre Patricia Highsmith finalmente teve seu livro mais polêmico transportado para as telas de cinema, depois de meio século desde o seu lançamento, com um elenco maravilhoso, mas com tantas alterações que mais parece um romance ‘Julia’, daqueles que se encontra em bancas de jornal. Enfim… um filme brega, com uma boa produção e trilha sonora.

Voltando a minha avó, que nem ficou até o final da longuíssima premiação para ver que o filme supra citado não levou nenhum dos globos para qual foi indicado, ela, que viveu aquele período de tanta repressão, principalmente para com as mulheres, dá um banho na minha geração e as posteriores a minha quando o assunto é ‘vá cuidar da sua vida’.

O que será da nossa sociedade se, daqui uns 20 anos, quando essa massa de adolescentes caretas (sim, são tão caretas quanto o termo ‘careta’), religiosos, conservadores ou, simplesmente autoritários e idiotas, tiver seus 35 anos e ainda se achar no direito de não respeitar alguém porque ele é homossexual (boióla), porque não trabalha numa coisa que dá dinheiro (é impossível que tu sejas feliz), porque não é a família tradicional brasileira, porque tu tens muitos amigos gays (quando vais trazer um namorado pra gente conhecer?), porque fuma maconha (que até lá será liberada), porque ela tem 40 anos e não é casada com filhos (é solteirona, ou não… dizem que…), porque tem tatuagem (que horror), porque é a favor do aborto (onde está o respeito à vida?!) (Ué?!), porque ela é guria e bebe e faz festa tanto quanto o tiozão garanhão da família (quando será que ELA vai tomar juízo?), porque lá em 2014 votou na Dilma (culpa sua, a crise política), porque não tem fé, porque , porque, porque…

Por que as letras de músicas escritas há 30, 40 anos continuam tão aplicáveis ao cenário atual? Falando em música, enquanto estava escrevendo, eu ouvia um CD do Kid Abelha e minha avó passou por mim cantarolando “amanhããã é vinte e trêêês…”.

Por que as pessoas parecem retroceder quando se trata de liberdade e respeito às diferenças? (Não é retrocesso! É querer manter a ordem e a moral). Ora, pois. Se o gráfico seguir assim temos uma bela tempestade moral e cívica se aproximando! Os piá são muito mais ‘tradicionais’ que meus avós, que agora há pouco estavam dizendo que eu deveria procurar alguém da raça japonesa para me relacionar. “Eles são inteligentes e gostam de sexo!”, simples assim. Se viva estiver (e eu até rezaria para que sim, caso acreditasse que funciona), minha avó solenemente dirá para os futuros seres producentes e julgadores do nosso Brasil o mesmo que diria hoje: “Puxa! Que gente chata… Filha, nem sabes, eu caí hoje no centro. Mas só me machuquei um pouquinho… Caí de madura! Risos”.

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2015 – o ano do ‘muito’

In Crônicas on 17 de dezembro de 2015 at 16:29

Fim de ano é um saco. Eu não gosto de Natal, nunca gostei de férias e detesto calor, mas vou confessar que este ano foi surpreendentemente proveitoso.

2015 foi o ano do ‘muito’. E não aquele muito de excesso ou exagero. Foi muito, muita coisa.

Nesses últimos 12 meses eu li muito. Falei e ouvi, cantei e berrei muito.

Eu conheci pessoas geniais e com elas me diverti e aprendi muito.

Fiz muita música! Cantei com muita gente!

Eu chorei bastante. (Coisa que me pegou desprevenida, porque eu geralmente não choro nada)

O que me lembra que eu me surpreendi muito também. Comigo, principalmente.

Viajei muito (dentro e fora da minha cabeça), gargalhei, comi, corri e bebi muito. (Ok, essas duas últimas talvez tenham sido em excesso). Debochei muito. Ninguém esperava nada menos.

Eu briguei pra caramba, barbaridade! Minha paciência esse ano se esgotou muito.

Devo ter esgotado a de muitos também.

Xinguei muito! Mandei ‘tomar no c#’ muito!

Fiquei horrorizada com muita coisa. Com a política, com a tragédia, com a bestialidade e a prepotência.

Acho que, inclusive, fiquei muito calada diante disso.

Usei muito batom vermelho.

Senti muita saudade.

Escrevi muito.

Apaguei muitas coisas que não valiam a pena ser lidas por ninguém. Outras por receio que fossem lidas por alguém.

Me aproximei mais de pessoas que gosto e admiro muito. Me afastei de muitas outras também.

Meditei muito. (Ok, essa todos sabem que é mentira). Eu nem dormi muito.

Meu cabelo cresceu muito. Eu emagreci, estudei, ensaiei e cansei muito.

Me apaixonei muito, por muitas coisas. Fazer o que… o mundo dá voltas.

Muitas.

Fiquei muito longe. Muito na rua.

Acho que exigi muito também. Mas vamos indo. “Next!” Muito bem.

Em 2015 eu vivi muito!

Que 2016 seja ano do ‘mais ainda’ 🙂

P.S. Eu sei que é cedo pra essa ladainha de final de ano, mas é que eu fico entediada… sejam queridos e me aguentem. Eu aguento vocês… e muito!

#filososelfie

2015-12-17

O menino não Jesus de Praga

In Crônicas on 13 de outubro de 2015 at 11:36

Godot Art Gallery

Era uma pequena galeria, dentro de um pequeno beco em uma das estreitas ruas do Staré město, bairro antigo de Praga. Esses olhos nos chamaram como se pedissem ajuda em uma vitrine! Foi amor a primeira vista.

Era este o rosto que surgia em minha imaginação quando pensava em habitantes do leste europeu (não me julguem), e alguém teve a delicadeza de coloca-lo no papel para que uma pobre mortal incapaz de desenhar pudesse ter a oportunidade de vê-lo fora de sua própria cabeça.

A galeria estava abarrotada com desenhos, xilogravuras, esboços, pinturas de todo o tipo. Não era uma loja de souvenirs, era um atelier. As paredes eram em um tom de mostarda, como muitas em Praga. Na entrada um homem de seus quarenta e poucos anos, em uma mesa marrom, também abarrotada de itens. O lugar era nostálgico e cheirava a temperos, por causa do restaurante que ficava ao lado. Acho que, ao entrar, ficamos parados por uns minutos no centro da minúscula sala, sem falar, olhando aquilo tudo.

O senhor, dono do local e, provavelmente, farto de turistas, não nos deu muita bola e esperou que tentássemos algum contato, afinal, não sabia que língua falaríamos. Depois de alguns suspiros, explicamos para ele que raramente encontramos lojas como aquela em cidades turísticas e como estar ali era encantador para nós. Ele nos respondeu com o máximo de entusiasmo que um tcheco pode demonstrar e, aliviado, disse que turistas geralmente não compram obras de arte e sim chaveiros… Quanta verdade… Nos explicou que tudo ali era original e vinha com certificado de autenticidade, diferente das coisas que se comprava pelas ruas de Praga, que eram reproduções, por vezes até ilegais.

A galeria Godot foi aberta em 2003 e suas vendas são, em maioria, realizadas pela internet. O que é surpreendente baseado na estrutura que ele tinha ali. Godot é o nome de um personagem de uma peça de teatro absurdo, escrita pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett, publicada em 1952 e já encenada no Brasil muitas vezes, inclusive na nossa capital gaúcha.

Perguntamos sobre o menino do poster, que é a logomarca da galeria, e, para nossa surpresa, era um desenho criado pelo pai do dono do local, ainda vivo. A reprodução oficial do poster custou algo como 100 Coroas tchecas, que equivaleriam hoje a menos de 4 Euros. Como as pessoas sobrevivem de sua arte é ainda mais desconcertante do que o olhar do menino.

Compramos dois e mais algumas coisas. Era tudo muito bonito!
Por casualidade, ao procurar moedas na bolsa encontrei perdida uma moeda em Real e ri, brincando em português. Para minha surpresa, ele me entendeu e num salto disse: “vocês têm moedas brasileiras? Meu pai as coleciona e não tem nenhuma brasileira! Se você me der essas, posso dar um desconto nas suas compras.”

De alguma forma eu me identifiquei com aquele senhor, de olhar tristonho e acanhado, mas que transmitia uma enorme honestidade. Eu ainda tenho nítida imagem daquela conversa, naquela pequena galeria. Ele não estava preocupado em etiquetar suas coisas, nada ali tinha preço para ele. Na verdade, ele ficava muito desconcertado toda vez que tinha que dizer o preço de alguma coisa. Como se fosse desrespeitoso ou um incômodo para nós ouvir a resposta. O que cada item valia estava em sua consciência, em quando foi desenhado, em por quem foi criado (aparentemente outros membros da família também eram artistas e ele ajudava alguns amigos expondo seus trabalhos para venda ali. Ps. Kandinsky está no catálogo de vendas deles). Demos para ele todas as moedas que tínhamos e saímos de lá ouvindo ele dizer que contaria ao seu pai que brasileiros haviam comprado suas obras e como ele ficaria feliz em ouvir isso depois de pintar por tanto tempo. A gratidão estava no tom de voz dele. Por ele e o velho pai. Estes momentos não têm preço. Aqueles olhinhos estavam, de fato, nos chamando por algum motivo… não há ‘complexo de vira-lata brasileiro’ que sobreviva a tamanha honestidade e admiração. “Vocês vieram de tão longe e entraram na minha galeria. Děkuji! Nashledanou.”

Se alguém tiver a oportunidade de visita-lo o endereço é o seguinte: Karlova 184/12, 110 00 Praha 1-Staré Město, Česká republika. Diga ao seu Vladimir que o menino está faceiro em duas casas brasileiras. 🙂

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Eu canso

In Crônicas, Poemas on 29 de agosto de 2015 at 01:10

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Eu me canso. Muito e de muita coisa.

Aos 20 e alguns anos estou cansada. Aos 17 já estava.

Se aos 7 não estava, não sei, não estou lembrada.

Me canso de correr. De me refazer.

De me despedaçar e recompor.

De me expôr.

Eu me canso de apagar incêndios que não foram causados por mim.

Ardente, inconsequente, mas água com aroma de jasmim.

Canso de ser a chata. De pedir, de desculpar.

De esperar.

Tem dias que eu canso, inclusive, de escrever.

Não tenho nada a dizer.

Eu me canso.

E às vezes não sei nem o que é cansaço.

Não quero crer que seja a causa de tanto estardalhaço.

Eu canso de fazer merdas.

De ver as pessoas fazendo merdas, atrás de merdas.

E não poder fazer merda nenhuma.

Eu me canso.

Canso os outros também. Sou consciente disso.

Por não reconhecer o cansaço.

Sou uma longa trilogia sobre coisas feitas de aço.

Canso de ouvir calada. Acredite ou não.

Às vezes eu abro mão da razão.

Por paixão.

Eu não frequento templos. Meus confessionários são as caixas cheias de cadernos que guardo desde o início da minha humanidade.

Me perdoe, pois eu pequei.

Pequei em acreditar que as pessoas têm realmente o valor que dou para elas.

Em confiar que todo o esforço será recompensado.

Em pensar que muitos acertos não serão facilmente esquecidos pelo avassalador poder do erro.

Me perdoe, pois não sou nenhuma divindade. Há dias que não possuo sequer sanidade.

E eu me canso. Até de me cansar.

Das dedicatórias escritas à lápis

In Crônicas, Poemas on 3 de agosto de 2015 at 17:49

“Se precisar, você apaga”.

Com letra desenhada. Ensaiada.

Eu não corrijo presentes. Presente é momento e deve ser guardado como tal. Eu tampouco apago o passado.

Assim como as letras impressas em qualquer livro, as palavras ditas não são “desditas”. O tempo e toda a sua influência alteram os sentimentos, as pessoas, os lugares, mas, nunca as memórias.

Não espere que eu apague sua presença. Da mesma forma que não posso apagar sua, tão frequente, ausência.

Não espere que eu apague o seu presente. Passado. Algum futuro?

De mim não espere nada. Afinal, eu sim sou escrita à lápis. “Se precisar, você apaga”. Como algumas outras já devem ter sido.

Imagine que sua vida é uma folha de papel. Pode ser um velho caderno, um diário, agenda… qualquer folha em branco… não importa, realmente. Tudo que for escrito nela será uma eterna marca em sua textura, seja qual for a tinta ou grafite que você use e, eventualmente, apague. Por mais rápido e suave que tente deixar o traço de sua mensagem, ela estará para sempre lá. Algumas mais profundas e obscuras que outras.

Quando for escrever, ao menos para mim, escreva à tinta. Deixe manchas pelo mundo. Em mim, em você.

Suje as mãos.

Seja permanente e visível, mesmo que rasurável. Seja um presente “inapagável”.

Seja uma letra clara e verdadeira. Um fluxo de consciência. Preto no branco.

Um poema ou uma carta, tanto faz. Algo sem sentido ou sagaz.

Seja tudo!

Ou nada mais.

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Arquipélago sem nome

In Crônicas, Poemas on 2 de agosto de 2015 at 18:26

Aquele que disse que nenhum homem é uma ilha nunca esteve em uma.

Nunca sentiu que não havia nada além de imensidão ao seu redor. Mar e céu.

Sempre avistou terra e a teve embaixo de seus pés.

Aquele que disse que nenhum homem é uma ilha nunca esteve sozinho sem ter para onde ir.

Nunca gritou para a infelicidade do seu próprio eco ou contemplou a monotonia da sua própria sombra sob o sol e todas as suas horas do dia.

Quem disse isso nunca contou estrelas, nunca andou em círculos ou falou sozinho.

Se nenhum homem é uma ilha, como pode haver quem faça de si um microcosmos. A criação, elevação e carícia de seu próprio ego.

Como pode haver quem nade e morra na praia ou surfe entre tubarões.

Como pode haver gente que mais pareça tubarão?

Se nenhum homem é uma ilha, por que há quem seja continente? Contingente… soldado.

Por que há quem seja árido, quem seja pálido, vulcânico ou nebuloso?

Aquele que disse que nenhum homem é uma ilha, nunca odiou férias ou desdenhou a umidade. Nunca nadou contra a maré.

Pois sim. Sob iminência de um tsunami eu digo: sou hoje uma ilha. Colonizada por todos e cercada por nada. Um pedaço de terra no meio do mar.

6 de março de 2015.

Miki in Wonderland

In Crônicas, Viagens on 14 de maio de 2015 at 17:26

11

Hoje olhei a minha agenda e me dei conta de que, pelos meus planos iniciais, nesta data, estaria pisando em solo brasileiro novamente. Me lembrei do dia em que fechei a porta atrás de mim e mentalizei: “que quando eu voltar, seja diferente!”. Mais ou menos como quando somos crianças e desejamos ter super-poderes. Eu embarquei determinada a gerar mudanças, em mim, na maneira que vejo as coisas e na forma que resolvo tudo na vida: com muita bagunça e pressa – é claro. Ou seja, queria colocar as coisas em ordem; em mim.

Ao meu ver, viajar sempre foi uma forma de observar a nós mesmos nos outros. Em outras paisagens, culturas, línguas, comportamentos. Dessa vez nosso destino nos levou mais ao leste. Três novos países para colorir no meu mapa, que já contava com oito cores, além do vibrante (e gigante) verde e amarelo da minha própria pátria mãe gentil.

O leste europeu tem um peso como nunca antes eu havia sentido. Existe uma melancolia andando ao nosso lado pelas ruas, contornando a arquitetura imponente dos prédios de pedra cinzenta. Prédios funcionais, construídos com o simples e direto propósito de abrigar algo ou alguém. As ditaduras pelas quais passaram esses países os tornaram sisudos, quase mau humorados, como se fosse natural desconfiar de tudo e todos. De qualquer forma, apesar de ver a tristeza e o sofrimento em muitas paisagens da Hungria e República Tcheca, não me sentia triste. Acredito que o fato de lá ser normal ser triste me confortava. Claro que esse parecer não inclui a Áustria, onde aparenta ser Natal o ano inteiro de tanto exagero “clássico”.

Quando finalmente abri a minha mala em solo espanhol, nas ilhas Gran Canarias, onde permaneceria pelos próximos meses, a tristeza, por fim, se manifestou. Meu pensamento durante as primeiras duas ou três semanas foi: “Eu não vou aguentar esse lugar. Três meses é muito tempo. Não tenho compromissos aqui, não tenho amigos, não conheço nada e nem tenho interesse em conhecer!” E quase entrei em desespero.

Minhas aulas começaram, e a ocupação foi afastando esses incômodos da minha mente. Aos poucos a nova rotina foi entrando no meu sistema nervoso, me fazendo adaptar à nova realidade que me cercava. Existe vida além da praia e da cidade turística projetada para aposentados. Quem é que vai se sentir mal em uma das cidades com a melhor qualidade de vida e clima do mundo? Prazer, eu.

Entretanto, fazer novas amizades nunca foi problema para mim, desde que houvesse algo em comum para se conviver em grupo. Hoje, 13 (número de sorte) semanas depois de ter deixado o Brasil, vejo como o tempo é relativo. Sinto muita (muita mesmo!) falta dos meus amigos, dos meus livros, minha família que ficou, minha casa, minhas coisas!, mas ao mesmo tempo já tenho consciência de que, quando voltar, já tenho muita coisa daqui para sentir falta também. Conheci muita gente (se tem algo que eu adoro é conhecer gente! Mais que lugares, juro por Buda). Pessoas que, como eu, estão em terreno estranho, rindo dos costumes locais (não como julgamento, mas por ser peculiar), buscando conhecimento com outras visões de mundo, outros professores, outras regras. Quebrei algumas, mas juro que foi sem querer. Acho que todos nós intercambistas quebramos em algum momento do semestre. Desde o início das minhas aulas convivo com colegas e professores de diferentes partes da Espanha, da Lituânia, Polônia, Bulgária, Chile e talvez outros lugares que eu nem saiba… Muita gente talentosa e cheia de energia, que dão vida ao Conservatório de Música e à vários outros espaços culturais de Las Palmas. Com eles aprendi, não só a aperfeiçoar a música, mas a aceitar as particularidades de cada um. Observei que não sabemos nada sobre outros países e eles também não sabem nada sobre o nosso. Como nativos, é nossa função descrever a nossa realidade.

Um dos meus livros preferidos, o qual fiz questão de trazer comigo uma versão pocket, é ‘Alice no País das Maravilhas’. Irônico, porque lembro nitidamente de odiar a animação quando criança, pois me deixava muito aflita ter todos aqueles personagens que não faziam sentido algum e ela não ter o que fazer para se livrar deles e voltar para casa. Pois bem, acho que nesse período fora da zona de conforto acabei conhecendo Lagartas, Chapeleiros Malucos, Lebres, Gatos Sorridentes, Rainhas de Copas, Coelhos Brancos e tomando chá com loucos e jogando críquete com sua majestade. A diferença é que não sou Alice, nem tenho sua personalidade corajosa e racional, só a curiosidade, que a fez pular num buraco atrás de um coelho apressado, sem saber onde ia parar ou beber poções que não sabia qual seria o efeito. O.o

Por fim o tempo passou e eu mal vi! Estendi minha permanência na Espanha para poder cumprir com todos os compromissos que me foram propostos e, olhando para a minha agenda hoje, pensei: “Eu não sei se mudei, mas esse mundo é pequeno. E dá voltas pra c@r@leo!”

Abaixo um dos meu trechos preferidos de Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll)
“O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?”

“Isso depende muito de para onde você quer ir”, respondeu o Gato.

“Não me importo muito para onde…”, retrucou Alice.

“Então não importa o caminho que você escolha”, disse o Gato.

“…contanto que dê em algum lugar”, Alice completou.

“Oh, você pode ter certeza que vai chegar”, disse o Gato, “se você caminhar bastante.”

“Alice sentiu que isso não deveria ser negado, então ela tentou outra pergunta.

“Que tipo de gente vive lá?”

“Naquela direção”, o Gato disse, apontando sua pata direita em círculo,” vive o Chapeleiro, e naquela, apontando a outra pata, “vive a Lebre de Março. Visite qualquer um que você queira, os dois são malucos.”

“Mas eu não quero ficar entre gente maluca”, Alice retrucou.

“Oh, você não tem saída”, disse o Gato, “nós somos todos malucos aqui. Eu sou louco. Você é louca.”

“Como você sabe que eu sou louca?”, perguntou Alice.

“Você deve ser”, afirmou o Gato, “ou então não teria vindo para cá.”